Enchente

Conforme água recua no Laranjal, moradores avaliam condições dos imóveis

Passados mais de três dias da religação do bombeamento de drenagem, a água segue represada em muitas ruas do bairro

Foto: Volmer Perez - DP - Ainda não há um levantamento sobre a quantidade de imóveis atingidos

Três dias depois da religação da casa de bombas Pontal da Barra, a instalação de bombas flutuantes provisórias e disposição de tratores com equipamentos pluviais à beira da praia do Laranjal, o cenário atual dos alagamentos evidencia uma redução considerável dos níveis nos balneários Valverde e Santo Antônio. A todo instante, desde a reativação desses sistemas de drenagem no último fim de semana, moradores que foram obrigados a deixar suas casas em razão da inundação, retornam após quase um mês fora para verificar os danos deixados pela água. A depender de circunstâncias como a altura em que a água chegou ou a eficiência da elevação e acomodação dos itens dentro da residência, as cenas de destruição divergem uma da outra.

Na tarde de ontem, a chuva ainda caía no Laranjal quando o morador Cristiano Tavares, 45 anos, marchava em meio ao alagamento da rua Cidade de Pinheiro Machado em direção à sua casa, um mês depois de tê-la evacuado junto à mulher e os dois filhos. Tavares revela que a família já ficou mais tempo fora de casa do que dentro dela, pois o imóvel foi adquirido há cerca de 60 dias. Ainda sem noção dos estragos, ele admite que o sentimento de dar as costas o imóvel recém adquirido é de lamento profundo, mas não se pode lutar contra as forças da natureza. A família não esperou a água chegar e respeitou os primeiros alarmes de desocupação, erguendo tudo o que pode.

“Eu moro há 45 anos aqui em Pelotas. É a maior [enchente] que eu testemunho. Já tinha conversado com a vizinhança antes de comprar a casa aqui. Já tinham falado que tinha enchido outras vezes, mas igual a essa não tinha tido ainda. Essa foi a mais alta que chegou”, declara Tavares, olhando para a marca deixada pela inundação na parede externa, que chegou até a altura da janela. “E o maior problema dessa enchente é que está durando. Nós estamos pisando na água ainda. Vai longe isso. Até se ter uma tranquilidade, de dizer ‘terminou’, vai longe. Mas se o tempo ajudar e o vento, uns 15 dias”, estima.

Avançando pela parte da garagem, e com auxílio de um funcionário que presta serviços gerais à família, depois que passa pelo portão de ferro, o homem percebe que um grande armário tombou no espaço e parece estar em estágio avançado de apodrecimento. Anteriormente, sobre esse móvel, ficava escondida a chave que dá acesso ao restante da casa. Com isso, a intenção de ingressar na casa é barrada por mais um obstáculo. Prestes a iniciar a procura pela chave, Tavares declara incerteza acerca do seu futuro no Laranjal.

“A ideia é permanecer. Mas te dizer agora, nesse momento, sem fazer uma análise, não tem muito como. Tem que contar um pouquinho com a sorte, que o tempo ajude, uma série de coisas. Qualquer coisa que tu pensar nesse momento, amanhã deixa de ser verdade. Amanhã pode dar outra enchente ou podemos passar mais de 80 anos sem ter uma enchente grande”, concluiu.

Cenário de guerra

Mesmo com a queda das águas, um trecho da avenida Senador Joaquim Augusto de Assumpção, mais próximo ao trapiche, segue inteiramente inundado pela água. Conhecida pelos bares e restaurantes, a principal avenida do Laranjal não lembra o que um dia já foi. A leveza do cenário praiano, que fazia do lugar um ponto de descanso, agora dá vez a um horizonte hostil de devastação. Da mesma forma, os altos diques de areia, que se estendem por toda a orla da praia, mais se assemelham a trincheiras em uma guerra contra a natureza. Além disso, um forte odor domina vários pontos do bairro em que, aparentemente, o esgoto se misturou à água do alagamento.

Um dos restaurantes, especializado em frutos do mar, expõe o clima de destruição na fachada. Três vidros que dividem o estabelecimento do passeio foram demolidos pela força da água. O proprietário, Laerte Portantiolo, que tem 41 anos, conta que veio do Pontal da Barra para o Laranjal nas enchentes de setembro de 2023, mas a fuga da água não evitou um segundo desastre que afetou o negócio familiar em menos de um ano. “É inexplicável. Além do restaurante, nossas casas são todas no Valverde também e estão cheias de água”, relata o empresário.

Mais forte que a água

Nesse momento, o foco no restaurante está direcionado para a limpeza e retirada do barro, a recuperação do que ainda tem serventia e a reconstrução daquilo que a cheia levou. O proprietário garante que o que restou intocável pela água, não só no ano anterior como agora, foi a força de união da família. “Tem muita gente que depende disso daqui pra viver. Os colaboradores, a família. Nós trabalhamos com grande parte da família aqui. A irmã trabalha comigo, o cunhado, os tios, a mãe, o pai. Todo mundo depende disso daqui. Então a gente tem que tirar forças pra conseguir”, afirma.

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